Secretaria Municipal da Saúde
Com suporte do PAI, mãe de 101 anos cuida de filho de 75

Aos 101 anos, Dona Carolina recebe mais do que monitoramento clínico; recebe acolhimento da equipe do PAI (Acervo/ Ascom)
Dona Carolina tem uma rotina que, à primeira vista, parece simples: acorda por volta das oito e meia, toma café com pão, manteiga, queijo e a banana de todo dia, descansa um pouco, toma sol no quintal, esquenta o almoço, come frutas no meio da tarde. Mas por trás desses gestos está uma mulher centenária com uma vida inteira dedicada ao trabalho e que há uma década assumiu os cuidados com o filho José Antônio Modesto, 75 anos, que convive com as sequelas de um AVC, ambos recebem os cuidados e apoio da equipe do Programa Acompanhante de Idoso (PAI) e da UBS Vila Arriete, na zona sul.
“Eu sou Carolina Ferreira de Abreu tenho 101 anos, nasci em Mogi Mirim no dia 2 de agosto do ano de 24, mas vim de Bariri, para São Paulo e estou morando aqui até hoje, 50 anos dessa mesma casa”, relata. “Me casei, tive dois filhos, a Lucélia e o Zé Antônio, o moço e ela”, aponta para a prole na sala de sua casa, simples, mas espaçosa. “Só dois filhos eu tive. Trabalhava de empregada doméstica, mas de cozinheira. E eu fazia comida boa. Até o governador Ademar de Barros foi fazer um comício em Bariri, e escolheram uma casa para dar almoço para ele. Era justo a casa que eu morava, trabalhava e cozinhava. Quando ele acabou de almoçar, ele que chamou eu, falou seu almoço tá muito bom, muito gostoso. Fazia aquelas batatinhas pequenininhas, tudo assada”, rememora com orgulho.
Cozinhar é a forma como ela demonstra cuidado, afeto e autonomia. Até hoje, quando visita filhos, sobrinhos ou recebe alguém em casa, não demora a ouvir: “Faz a comida pra nós, tia Carolina?”.
Na casa onde mora, um dos símbolos dessa história é a mesa da cozinha. A peça, comprada de uma amiga cujo marido colecionava móveis antigos, é conhecida como a “mesa do barão”. Os filhos e netos já decretaram que, se a mesa era do barão, dona Carolina virou baronesa.
Mesmo aos 101 anos, dona Carolina faz questão de manter sua independência. Toma banho sem ajuda – aceita apenas uma “mãozinha” para esfregar a cabeça de vez em quando – e prepara o almoço quando a cuidadora se ausenta. Todo dia, reserva um tempo para sentar no quintal e tomar sol. Ela conta que insiste “todos os dias” para o filho lhe fazer companhia. Entre uma refeição e outra, fruta: banana, laranja, mexerica. Se tiver um doce, melhor ainda, “um pouquinho só”, diz com ar de criança sapeca.
Qual é o segredo para chegar aos 100 anos com essa disposição? Ela responde de bate pronto: “Comer bem, comer de tudo, não ter nojo de comida, viver de arroz e feijão, evitar carne gordurosa, não exagerar no prato. Cantar, rir, receber visitas, principalmente da equipe do PAI e manter a alegria”, elenca os pontos sem pressa. E ainda conta que, de vez em quando, permite-se um “vinhinho” ou uma cerveja, “pouquinho”, diz como quem sabe que o prazer também faz parte da receita de longevidade.
Dona Carolina impressiona. Teve trombose, operou a vesícula após crises de pancreatite, convive com catarata e perda auditiva – deveria usar aparelho, mas não gosta muito, porque “fica tudo muito alto”. Mesmo com esses problemas, ela não faz uso de medicação contínua, o que chama a atenção de quem acompanha seu caso. Sua principal limitação hoje é a audição, contornada com paciência, ao pé-do ouvido, com voz mais alta e pausada, gestos e contato próximo.
E sua maior preocupação não é com ela ou a idade avançada, mas sim o filho, que já enfrentou um infarto e um AVC, e tem sequelas motoras. Mesmo com todas as dificuldades, ele teima com uma rotina ativa e arriscada: mexe em armários altos, corta a grama, reorganiza móveis, administra a própria medicação.
“Essa convivência entre mãe centenária e filho idoso traz desafios diários e também uma forte ligação afetiva, marcada por cuidado mútuo e preocupação de um com o outro”, conta Fátima Domingues Ferreira, acompanhante de idosos, que há um ano acompanha dona Carolina e seu José, três vezes por semana (às segundas, quartas e sextas).
Suporte e presença
A chegada do PAI, articulado com a UBS Vila Arriete, transformou o dia a dia da casa. A acompanhante Fátima visita o domicílio, acompanhando formalmente José Modesto, mas, na prática, cuida dos dois. Com dona Carolina, ela oferece aquilo que, muitas vezes, faz mais falta: tempo e presença. Acorda a idosa com delicadeza, ajuda a ir para a sala, senta ao lado para assistir televisão, puxa conversa, canta, estimula a lembrar músicas antigas de Francisco Alves e Luiz Gonzaga, histórias de carnaval (a idosa não se esquece das fantasias de cigana dos desfiles em Trabiju, outro município do interior de São Paulo onde viveu) e outras memórias da juventude. E de vez em quando ainda rola uma partida de peteca.
Para José, Fátima organiza e monitora o uso dos remédios, conversa sobre o passado, ouve música na vitrola e adapta as atividades às limitações de mobilidade.
Ela explica: “A questão da medicação é séria, e a equipe desenvolveu um sistema de caixas coloridas para manhã, pós-almoço e noite, para ajudar a lembrar horários de medicação. Mesmo que ele ainda relute em aderir plenamente à rotina proposta, o acompanhamento sistemático permite identificar esquecimentos, orientar, ajustar e, principalmente, evitar que ele fique desassistido”, comenta a acompanhante.
A equipe do PAI e da UBS complementa esse cuidado. A auxiliar de enfermagem Paula Carine e outros profissionais como a enfermeira Cristina Andrade e a assistente social Juliana de Souza Alves, estruturam os protocolos para mãe e filho: monitoram sinais vitais, orientam sobre hidratação, organizam exames e atendimentos, e registram em relatórios cada visita, cada intercorrência. Em situações de pressão alta, mal-estar ou qualquer alteração, a equipe é acionada e garante que ninguém fique sozinho numa situação de risco. O programa não se limita a “passar em casa”: na prática, ele constrói uma rede de segurança em torno dos idosos.
Para Lucélia, a filha caçula que não vive com a mãe e o irmão, o PAI representa alívio e parceria. Durante anos, ela dividiu o tempo entre sua própria casa, os netos, o trabalho e a casa da mãe, especialmente depois do AVC de José. Com o avanço da idade dos dois, a preocupação só aumentava. A presença regular da equipe do PAI e de uma cuidadora familiar devolve a Lucélia um pouco de tranquilidade, sabendo que quando não está, alguém escuta, orienta, acompanha.
Assim, a história de Dona Carolina não é apenas a de uma mulher que ultrapassou aos 100 anos. É também a história de como o cuidado em saúde, quando se aproxima da casa, das pequenas rotinas e dos vínculos familiares, pode garantir dignidade, autonomia e alegria na velhice. O PAI não aparece como um serviço distante, mas como uma extensão da família: entra, senta, escuta, respeita o tempo da casa – e ajuda a fazer com que dona Carolina siga sendo o que sempre foi, na própria casa, do jeito dela e ainda dá suporte e acolhimento emocional à centenária que cuida do filho idoso.
Um senhor programa
O Programa Acompanhante de Idosos (PAI) atende homens e mulheres em situação de fragilidade e alta vulnerabilidade social acima de 60 anos e promove melhoria de vida e bem-estar a seus atendidos, reintegrando-os ao convívio social. O cuidado oferecido pelas equipes multiprofissionais do PAI integra um projeto terapêutico, que reinsere essa faixa etária ao convívio social, trabalhando a autonomia e a qualidade de vida nas tarefas diárias destes idosos, que vão da prática de exercícios físicos, tomada de remédios e demais cuidados.
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